Por que trabalhar com crianças de idades diferentes em uma mesma turma?
Porque embora haja uma certa diferença de idade entre elas, essa diferença tem pouco significado se pensarmos que estão na mesma fase de desenvolvimento. O nosso objetivo principal é que umas aprendam com as outras. Assim sempre terão oportunidade de conviver ora com crianças mais novas, quando poderão ensinar a elas, ora com mais velhas, quando poderão aprender com elas. Quando dizemos poderão é porque sabemos que nem sempre são as mais velhas que ensinam e as mais novas que aprendem. O que podemos constatar é que há momentos em que uma criança está aprendendo e há outros, em que essa mesma criança está ensinando. O que importa é a troca, é cada uma saber que todas têm algo a ensinar e todas têm algo a aprender. Lidar com vários níveis numa mesma turma, permite que as crianças lidem com as diferenças, sem se julgarem melhores ou piores que as outras.
E o conteúdo, como vocês trabalham, se os alunos estão em níveis diferentes? Por exemplo, se um aluno está aprendendo adição e outro multiplicação, como é o trabalho?
A questão das diferenças de ritmo de aprendizagem são as mesmas de qualquer outro tipo de agrupamento. Mesmo nas escolas seriadas, em que as crianças possuem aproximadamente a mesma idade em cada classe isso não significa que vão aprender os mesmos conteúdos na mesma hora. No entanto, nas classes seriadas, as diferenças de aprendizagem são, geralmente, encaradas como um problema, visto que se espera que todos vençam os mesmos conteúdos até o final do ano letivo. Já o agrupamento por fase permite que essas diferenças sejam encaradas com naturalidade e permite que o professor possa conduzir trabalhos mais direcionados para as necessidades específicas dos alunos sem que isso se transforme num bicho-de-sete-cabeças. Há momentos em que a atividade é coletiva, isto é com todo o grupo; há momentos em que os trabalhos são diversificados, ou seja, cada grupo fazendo uma atividade diferente, de acordo com sua necessidade.
No caso de um aluno precisar ou quiser sair do Libertas, ele vai conseguir passar nos exames de seleção de outras escolas? Ele vai se adaptar a outras escolas?
Na certa que ele vai passar no exame de seleção de outras escolas. Isto porque nos preocupamos – além do programa oficial, os PCNs - em desenvolver em nossos alunos o pensamento, o raciocínio lógico, a crítica, a criatividade, a solidariedade, o respeito às diferenças, etc. Isto dá a ele mais condições do que a escola que se preocupa só com os conteúdos. Quanto à sua adaptação, tudo depende de cada caso e situação. Na verdade esperamos que a passagem pelo Libertas torne nossos alunos mais abertos e capazes de enfrentar situações difíceis de forma equilibrada.
O fato da escola se chamar Libertas e ter uma proposta diferente das escolas tradicionais traz a idéia de poder fazer o que quiser, de falta de limites. O Libertas tem regras, tem punição?
O Libertas,como qualquer escola e instituição social, é um local de convivência coletiva. Portanto, tem regras claras e essas são cobradas com muita tranqüilidade por todos os seus educadores. O importante é o sentido dessas regras: a internalização pelos alunos de um código de conduta tal que nos propicie o prazer e a alegria de viver cooperativamente, conviver pacificamente uns com os outros, respeitar o diferente, pensar e agir ecologicamente em relação ao nosso próprio corpo, em relação à natureza e aos demais seres humanos. Quanto à punição, preferimos investir o maior tempo possível em conversas, reflexões, esclarecimentos. Porém, quando muito necessário, sabemos agir para que os limites sejam respeitados por todos.
Como vocês fazem para o aluno estudar se vocês não têm provas, não tem notas?
A nossa intenção é que o aluno goste de estudar, queira aprender e que estude não para fazer provas e tirar boas notas. Procuramos trabalhar com temas que sejam do interesse dos alunos, de forma globalizada e contextualizada, usando atividades bem instigadoras: textos ricos, filmes, excursões, experimentos, investigações… Assim, o estudo fica mais atraente e os principais objetivos colocados pelos professores são alcançados pela maioria dos alunos. A partir da fase III, os alunos têm atividades para serem feitas em casa, além daquelas feitas na escola. E exigimos que todas sejam bem feitas, com empenho e capricho. Para as fases mais avançadas (5 e 6) temos provas e temos as notas-referência. Eles sentem que isso é importante. Entretanto o que vimos de mais importante é o retorno imediato que eles tem do trabalho que estão fazendo, além da constante auto-avaliação que são estimulados a fazer.
Os alunos que estudam aqui têm condições de passar no vestibular? O Libertas se preocupa com isso?
Passar no vestibular é uma conseqüência do nosso trabalho e não um fim. Para nós, apenas passar no vestibular é muito pouco. Queremos que eles passem no vestibular, que fiquem na faculdade, que saiam dela com competência para exercer bem a profissão e principalmente que estejam felizes com a escolha feita. Não ter o vestibular como finalidade do trabalho, não significa que os alunos não estejam preparados para ele. Consideramos importante que o Ensino Médio seja realmente uma etapa da Educação Básica destinada ao desenvolvimento do pensamento dos alunos, principalmente porque é nesse momento que eles começam a pensar num nível mais abstrato e formal. Raciocínios importantes, como, por exemplo, a lógica inerente à condução de um experimento científico, apenas nessa fase se tornam possíveis. A discussão do contexto atual do mundo do trabalho, dos reflexos dessa problemática sobre os trabalhadores, bem como a complexidade do mundo das profissões são questões que precisam ser entendidas e levadas em consideração pelos alunos. Ainda, é importante que conheçam e entrem em contato com as diferentes áreas do mundo do trabalho, que avaliem a importância de cada uma delas e saibam refletir sobre os próprios interesses e tendências pessoais em relação a essas áreas, tentando responder à pergunta: eu gostaria de ser um profissional dessa área? Por quê? O tempo do Ensino Médio, portanto, é um tempo de aprendizagem de conceitos e procedimentos importantes, bem como um tempo de reflexão pessoal e não “cursinho preparatório” para fazer a prova do vestibular.
Esta proposta parece ser muito mais trabalhosa. Quem são os professores que trabalham nessa escola? Qual é a formação desses professores? O que a instituição faz para a formação desses professores?
A proposta é trabalhosa e exige profissionais muito bem formados do ponto de vista pedagógico. Não é fácil encontrar esse profissional pronto. A escola procura sempre prepará-los em serviço, abre espaço para estagiários que queiram entender melhor o que fazemos aqui, oferece cursos, incentiva que seus profissionais estudem.
A escola tem a proposta de ter poucos alunos em sala. Isto não traz lucros. A escola não corre riscos de fechar, de não ter condições financeiras para continuar e as famílias ficarem sem ter para onde ir?
Realmente, a escola precisa ter condições financeiras para pelo menos se manter. No momento, ainda estamos investindo. Ficamos felizes com nossos primeiros três anos de vida, quando passamos rapidamente de vinte alunos para duzentos e cinquenta. Portanto, a escola promete! E acreditamos que dentro de pouco tempo estaremos num patamar mais confortável, sob esse ponto de vista. Como o prédio é próprio e estamos crescendo, não vemos esse risco.
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