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26.10.07

Jogos – uma estratégia de aprendizagem Matemática


Por Maria da Graça Barbosa (Gracinha)

Se analisarmos a etimologia da palavra Matemática, veremos que o seu significado é “a arte da compreensão e da explicação”. Só é possível explicar algo que foi compreendido. Compreensão é algo interno, subjetivo, individual e explicação é a capacidade de externalizar o que foi compreendido, é algo que vem de dentro para fora. Se o aluno não tem a oportunidade de dizer o que compreendeu, se a explicação é do adulto para a criança, ela não está pensando e fazendo Matemática e sim reproduzindo Matemática. Reproduzir não é compreender. Na coordenação pedagógica no Instituto Libertas, minha proposta é planejar e vivenciar atividades em que os alunos façam Matemática e uma delas são os jogos em grupo.

Para que possamos assumir conscientemente o nosso papel de educadores, torna-se relevante a análise dessa proposta, considerando os vários aspectos de nossa ação pedagógica.

Aspecto cultural – Os jogos são um patrimônio cultural da humanidade, uma manifestação universal do gênio criador do homem. Nas sociedades onde não há escolas e as crianças aprendem com os mais velhos, ainda hoje, o lúdico é a força motriz dessa atividade. Ao ensinar um jogo, estamos ensinando uma série de conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural de um grupo.

Aspecto do prazer – É inegável o aspecto da diversão, do prazer que os jogos oferecem. Entretanto, para a criança, o jogo é, também, atividade séria, em que o faz-de-conta, as estruturas ilusórias têm considerável importância. O jogo representa para a criança o que o trabalho representa para o adulto. Nessas atividades não existe a falsa dicotomia entre o que é sério e o que não é. Jogar inclui potencialmente seriedade e prazer. E como o lúdico é característica fundamental do ser humano, devemos transpor esse prazer para a sala de aula. Mas é preciso ficar atento, pois nem tudo que é atraente e prazeroso tem valor educativo. Para ser educativo, é preciso, também, ser desafiante. As próprias crianças criam obstáculos para si e para o outro e é preciso que os adultos ofereçam-lhes outros limites que elas queiram transpor.

Aspecto social – O jogo introduz a criança no grupo social: ela entra em contato com seus pares, habitua-se a considerar o ponto de vista do outro e sai do seu egocentrismo. Confrontar pontos de vista estimula o pensamento e essa troca leva à construção do conhecimento lógico-matemático. O jogo possibilita que as crianças se relacionem com o limite e com as regras que regulam o que é permitido e o que é proibido nele. Nesse sentido, podemos considerá-lo um exercício simbólico à medida que devem lidar com as leis estabelecidas em um determinado grupo. Elas sabem que o que as torna um grupo é justamente o fato de estarem submetidas às mesmas regras, regras essas que podem ser discutidas e até modificadas pelo grupo. Essas situações são propícias ao desenvolvimento da autonomia, o que para Piaget é o principal objetivo da educação.

Aspecto do erro – A criança não fica, necessariamente, mal porque perdeu. Ao contrário, ela pensa que poderá ter uma compensação se jogar de novo. Perder indica que algo não foi considerado como deveria, ou que o adversário jogou melhor ou que teve mais sorte. O resultado sugere mudança nos procedimentos e maior observação nas estratégias do adversário. Sendo assim, o erro é visto como um desafio para uma retomada do processo. Entretanto, as crianças não querem perder sempre, e, por isso, os jogos devem ser adequados aos níveis de desafios que sejam capazes de superar.

Aspecto competitivo – Este aspecto costuma preocupar professores e pais que argumentam já ser a sociedade competitiva e que não devemos incentivar este aspecto. Constance Kamii, em seu livro Jogos em grupos (1980) diz que

“os adultos não deviam evitar jogos competitivos, mas guiar as crianças para que elas se tornem jogadoras justas e capazes de comandar a si próprias. A melhor maneira de lidar com a competição nos jogos em grupos é desenvolver desde o início uma atitude saudável e natural em relação à vitória e à derrota.”

Os adultos devem mediar as atividades de jogo, para que o lado mesquinho das competições dos humanos possa ser menos feroz e mais lúdico.

Ao se planejar um jogo pedagógico, o professor deve pensar a que objetivo ele atende; verificar se o desafio é adequado ao nível de desenvolvimento do aluno; experimentá-lo para ver se entendeu as regras, prever as situações que possam surgir, quais dúvidas os alunos podem ter para que esteja preparado para ajudá-los.

Acreditamos que, assim, a Matemática possa vir a ser, como diz Mário Quintana, “o pensamento sem dor”.

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