25.10.07
A Filosofia no Libertas: ser e estar no mundo
Por Rodrigo Rodarte, professor do Libertas
Há diferentes maneiras de concebermos o que a Filosofia é e, dependendo da forma com nós a compreendermos, diferente será também o seu ensino. No Libertas, a Filosofia não é entendida como um conhecimento enciclopédico, empoeirado nas estantes e que serve para nos propiciar ares de doutor. Ao contrário, ela é vista como um modo de vida, uma maneira plena, consciente e atenta do ser humano lidar com as suas próprias questões e com o mundo que o cerca. Mais do que um estudo, a Filosofia é uma vivência.
A compreensão da Filosofia como um modo de vida traz uma série de implicações pedagógicas, entre as quais destacamos três:
- as questões filosóficas devem ser vivenciadas pelos alunos – e não somente reproduzidas – para que suas reflexões sobre elas tenham um sentido concreto;
- as aulas não devem se restringir ao momento da transmissão de saberes mas, sobretudo, ampliar-se para constituir um espaço de investigação em grupo e da experiência da abertura para o mundo, da dúvida, da crítica e da elaboração filosófica;
- o aluno é encorajado a ser um sujeito filosófico que se forma a partir das suas vivências e que, por isso, não pode ser reduzido a um sujeito conhecedor da história da Filosofia. O sentido de ‘ser filósofo’ é que cada um percorra seu próprio caminho, construindo conscientemente sua maneira de ser e estar no mundo.
Além dessas implicações, há outras questões importantes que norteiam o ensino de Filosofia no Libertas.
O enfoque temático: Uma das tendências do ensino de Filosofia é abordá-la a partir de uma perspectiva histórica, fazendo do estudo da Filosofia um estudo da história do pensamento ocidental. Aqui, privilegiamos um enfoque não-linear e temático, por acreditarmos que esse enfoque nos conduz às perguntas que estão no fundamento desses temas, propiciando que essas questões tenham um sentido concreto para os alunos. Assim, acreditamos estimular o desenvolvimento de um pensamento autônomo, crítico e reflexivo, contribuindo para a formação de uma postura filosófica diante do mundo.
Os objetos do filosofar: Outra tendência recorrente no ensino de Filosofia é considerar que o seu estudo deva se dar somente a partir dos textos argumentativos da tradição filosófica. Isso faz com que, muitas vezes, os alunos fiquem distantes da linguagem dessas obras e das questões que elas propõem. Por isso, procuramos ampliar o conceito de texto e as possibilidades de sua utilização para o exercício filosófico. Assim, consideramos que qualquer bem natural ou cultural pode ser um estímulo para despertar no aluno o interesse pelas questões filosóficas, dependendo apenas da relação que os interpretantes (professores e alunos) estabelecerem com esse universo: um quadro, uma história em quadrinhos, uma piada, uma fala do aluno, uma brincadeira, uma música, uma planta podem ser ponto de partida para a elaboração filosófica que possibilitará, inclusive, a compreensão dos textos da tradição. Um objeto na aula de Filosofia é, portanto, um signo a ser recriado e re-significado pela turma.
Produzir cultura, transformar o mundo: Entendemos que as reflexões e as discussões filosóficas adquirem um valor e uma compreensão muito significativa quando são transformadas em algum produto cultural. Assim, o ensino de Filosofia no Libertas estimula e encoraja o processo criativo dos alunos, instigando-os a transformar em objeto de cultura o que é matéria de reflexão filosófica. Da mesma forma que entendemos que o texto filosófico não é o único estímulo para o filosofar, a produção filosófica não precisa ser necessariamente textual-argumentativa. Os alunos são estimulados a produzir filosoficamente em suportes e em linguagens diversificadas, como vídeo, pinturas, fotografias, charges, música etc.
Para nós, é também prioridade que todos procurem fazer da sua produção e da sua reflexão filosófica uma forma de transformação da realidade na qual estão inseridos, compreendendo a sua responsabilidade social, as suas possibilidades de intervenção por um mundo mais humano e mais justo e o seu papel na formação de seres compreensivos e solidários.
Democratização do saber: O ensino de Filosofia tem como proposta não só um ideal de democratização política, mas também o de democratização do saber, trazendo para dentro da escola as visões de mundo não-científicas e não-eruditas que foram historicamente marginalizadas e dialogando com elas, como os saberes populares e os da cultura oriental.
Filosofia e o nosso tempo: Um dos objetivos do ensino de Filosofia no Libertas é, a partir do olhar abrangente, crítico e globalizador próprio da Filosofia, contribuir para o posicionamento autônomo e reflexivo de cada um diante das questões políticas, éticas, sociais e epistemológicas do nosso tempo. Esses temas devem fazer parte da reflexão filosófica na escola para que o aluno desde cedo se familiarize com eles, se posicione e compreenda o seu papel na alteração de uma realidade esgotada pelo individualismo e pelas relações de competição. Acreditamos na formação de uma geração com grande potencial de transformação social e, por isso, a Filosofia deve ser o lugar da reflexão e da prática de novos paradigmas, movimentos, idéias e ideais que visam à construção de um mundo sustentável e mais justo.

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